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O que é software livre e como utilizá-lo como estratégia de negócios.

O termo de software livre surgiu formalmente através da criação de uma organização civil denominada Free Software Foundation, por Richard Stallman, em 1985. Essa organização foi um marco para a chamada “sociedade da informação”, pois materializou uma das mais importantes ações civis organizadas em defesa da liberdade de informação da história recente. Stallman (1996) define software livre da seguinte forma: “software livre se refere à liberdade dos usuários executarem, copiarem, distribuírem, estudarem, modificarem e aperfeiçoarem o software”. Entretanto, essa definição não deixa claro o aspecto econômica do modelo. Interpretações iniciais equivocadas assumiam que o software livre era sempre grátis, ou seja, que quem produzisse software livre não poderia vender e ter ganhos financeiros com os produtos desenvolvidos. Provavelmente, o termo em inglês para software livre (free software) deu margem a essa interpretação já que a palavra free pode significar tanto grátis quanto livre. Essa interpretação errônea fez com que muitos empresários não dessem importância para o novo modelo de negócio que estava surgindo.

Apesar de ser originária de uma cultura hacker1, específica de profissionais e estudantes de tecnologia, o modelo baseado em software livre começou a se mostrar uma alternativa atraente para o mundo de negócios, principalmente para empresas de TI que estavam estranguladas por um modelo monopolista e centralizador personificado principalmente pela empresa Microsoft que ditava as regras e tinha o domínio de mais de 90% do mercado de software para microcomputadores.

A atratividade do software livre aumentou bastante com o advento do sistema operacional Linux, criado pelo estudante finlandês Linus Torvald. Baseado totalmente em software livre, o Linux conseguiu mostrar-se eficiente em problemas que os sistemas operacionais Windows não conseguiam resolver ou resolviam de maneira sofrível ou a um custo muito elevado.

Um dos exemplos mais contundente desse fenômeno está no software Apache Web Server que gerencia e provê acesso às páginas Web na Internet. Sendo criado inicialmente para o Linux, esse software foi sendo desenvolvido por uma grande comunidade de programadores e analistas e ganhou a confiança das empresas desde o início da Internet comercial. Segundo uma pesquisa realizada em agosto de 2004, quase 70% de um total de mais de 53 milhões de servidores na Internet utilizam o Apache (Netcraft, 2004).

Comercialmente, existem diversas formas de gerar receita através do software livre. A forma mais direta é a venda de produtos. Como foi dito anteriormente, o software livre pode ser grátis ou pode ser vendido da mesma forma que o software de código proprietário. Entretanto, para que o software vendido seja livre, a empresa que realizou a venda deve fornecer o código-fonte junto com o produto entregue. O código-fonte é o conjunto de instruções que “dizem” para o computador o que ele deve fazer. Nele está a descrição de como o software foi escrito pelos desenvolvedores. A partir desse código, outro programador pode entender como o sistema funciona e, assim, modificá-lo. Com isso, o modelo dá a liberdade para que o cliente possa modificar e acrescentar melhorias sem que seja necessário contratar o fornecedor original.

Outra forma comercial de utilização do software livre está em prover serviços, suporte e treinamento para aplicativos e sistemas que atualmente são livres e distribuídos gratuitamente. A partir deste tipo de serviço, surgiram novas empresas, que se especializaram em instalar e configurar softwares de código aberto e que vêm tendo um sucesso expressivo (Fitzgerald, 2003)

O fenômeno do software livre pode também ser estudado sob o ponto de vista das redes de relacionamento estabelecidas entre firmas, com o objetivo de intensificar sua interação. Tais redes promovem “uma redução espaço-temporal nas inter-relações dos seus atores, como fatores altamente estratégicos para a competitividade das organizações do século XXI” (Balestrin, 2004).

Dentre as diversas abordagens teóricas de redes interorganizacionais, Balestrin (2004) sugere que o processo de desenvolvimento de software livre segue um modelo de rede horizontal baseado em cooperação. Ao compartilhar o conhecimento, as empresas envolvidas conseguem diminuir os custos de pesquisa e desenvolvimento e os riscos envolvidos na busca das melhores soluções. Conforme afirma Balestrin:

    Em termos de estratégia, as relações entre firma formam um ambiente de aprendizagem por meio de cooperação. Ests relações são complexas, junto às quais os atores concorrentes escolhem cooperar dentro de certo domínio. Assim, as redes favorecem a concentração de esforços, sem privar a liberdade de ação estratégica de seus membros (Balestrin, 2004 pg.242).

Um outro fator importante nas redes de software livre é o fato de que os desenvolvedores podem atuar em conjunto para conquistar novos clientes e promover ações de marketing que individualmente não teriam condições de fazer, por não terem uma marca forte por trás de seus produtos e serviços. Ao se estruturarem como redes, muitas vezes sob a édige de uma organização maior que congrege todos em uma única entidade, melhoram sua imagem junto a possíveis clientes e obtém legitimitidade em seu ambiente institucional (Dimmagio e Powell, 1983; Grabher, 1993 apud Balestrin, 2004).

Pode-se dizer que o software livre começa a se consolidar como uma solução viável economicamente para as empresas de forma geral. Especialmente para as MPEs, tanto para as que consomem quanto para as que produzem SI, esse modelo pode trazer inúmeras vantagens, devido ao seu caráter colaboracionista e de redução de custos transacionais e financeiros.

Percebe-se claramente um crescimento, mesmo que ainda tímido, do uso de software livre em todo mundo. Esse movimento vem ganhando força especialmente no setor governamental. Por exemplo, a prefeitura da cidade alemã de Munich está a frente da maior implantação de software livre, substituindo os sistemas da Microsoft por sistemas abertos em mais de quatorze mil estações de trabalho (TechWeb, 2004). Aqui no Brasil, o governo federal sob a égide do atual presidente Luis Inácio “Lula” da Silva, já mostrou claras intenções de utilizar software livre sempre que possível, como pode ser visto no portal de Software Livre do Governo Federal (BRASIL, 2004).

Deve ficar claro que a adoção desse modelo não envolve apenas questões técnicas. Existem motivações políticas e ideológicas associadas à liberdade de expressão, ao fluxo de capital e à geração de empregos locais que motivam empresas e governos a optar por essa solução.

Assim, investir num modelo e mercado que ainda não estão consolidados pode ser bem arriscado, principalmente para pequenas empresas que dispõe de pouco capital para a pesquisa. Porém, como em todo investimento de risco, a aposta pode também render bons resultados para as empresas e profissionais que estiverem capacitados a utilizar, de forma eficaz e eficiente, este novo modelo de negócios.

Bibliografia

BALESTRIN,A. e VARGAS, L.M. A dimensão estratégica das redes horizontais das PMEs: Teorizações e Evidências. Revista de Administração Contemporânea - Edição Especial 2004. ANPAD, 2004.

FITZGERALD, Brian; KENNY, Tony. Open Source Software in the Trenches: Lesson from a Large-Scale OSS implementation. Twenty-Fourth International Conference on Information Systems (2003).

LEVY, Steven.Hackers.Anchor/Doubleday 1984.

NETCRAFT. August 2004 Web Server Survey.

STALLMAN, Richard. The Free Software Definition.


1O termo cultura hacker parece ter sido utilizado pela primeira vez pelo o grupo de pesquisadores de Inteligência Artificial do MIT. Representa as pessoas que seguem um modo de vida baseado em descobrir falhas nos softwares e construir novas utilidades para a Tecnologia da Informação (Levy, 1984).